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deslizo. escorrego nas tuas palavras
e caio num poço sem fundo
os braços a desmaiar
teimando no abraço do que resta dos nossos dias

estremeço. sinto a ausência do teu fogo
e espalho as cinzas náufragas
na pedra angulosa da insónia
onde me fazes companhia nas horas mortas desta noite fria

insónia

o silêncio ensurdecedor
mantém-me desperta.

(e a tua imagem
num rodopio alucinado
a furar-me os olhos
secos
das lágrimas contidas)

o teu natal

para ti, meu “menino”:

não te vi nascer
mas senti-te re_nascer

não te acolhi
mas te re_colhi

res_guardo-te
e abrigo-te
– dentro de mim –

os teus natais
desde que te conheci

nós

hoje, acordei
menina

mulher
me cobri com pele de tigre
esperando-te numa toca
entre nuvens de algodão
o corpo acomodado
num colchão de mar
onde desagua o teu rio
distante

tocas-me
com as tuas palavras
com os teus sussurros

toco-te
com as minhas palavras
os meus gritos

e os dedos entrelaçados em nós
de redes invisíveis
crispam-se em volta da lua
que tem a forma do teu coração

um corpo

reflectido no espelho, um corpo.

o rosto marcado pela saudade.
olhos afundados em escuras olheiras.
lábios trementes. silenciosos.

os braços. nus.
as mãos, vazias.

os seios, duros. ansiosos.

a curva do ventre escondendo uma gruta. desejosa.

pernas firmes.
pés a fugirem ao chão.

ainda está vivo?

em silêncio

leio-te — em silêncio

porque te possuí a_gosto

e

se_t(e_l)embro sem fim
ou_t(e_c)ubro até ao fim

é

porque o silêncio tem um nome
porque o silêncio tem tempo
porque o silêncio tem desejo…

num deserto…

alucinada,
num labirinto de dias ocos e noites brancas,
cruzo as sombras num deserto de silêncios.

pássaro de asas longas!
cantor das horas vespertinas!
embala-me
com a melodia dos teus olhos de água
oferece-me
a paz do teu manso regaço.