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Março 27, 2009

Em tempo…

Acordei bem cedo com o chilrear dos pardais que, mal despontam os primeiros raios da manhã, fazem o favor de ser o meu despertador. De vez em quando perco a hora, porque não os ouço. E isso acontece quando a coruja, minha amiga, me vem fazer uma visita que se prolonga pela noite fora.
Tudo isto para te contar que, como madruguei, resolvi ir ao meu jardim.
Há muito tempo que ele precisa de um trato; mais parece uma selva. Tenho muito que fazer: capinar, arejar a terra, arrancar as ervas daninhas, podar os arbustos, regar, e procurar entre os trevos um que tenha quatro folhas para ver se a sorte me bafeja.
No entanto, o meu olhar deteve-se nas flores. Nas minhas flores. Primeiro, nos malmequeres. Queres saber? Cortei um, e voltando à minha meninice, pétala a seguir a pétala, as fui arrancando: mal-me-quer, bem-me-quer… na esperança que o bem-me-quer fosse a última. Azar o meu… mal-me-quer. Zangada comigo mesma, porque teimo em querer ser criança, joguei o que restava no saco do lixo.
Apesar disso, reguei os malmequeres na esperança de, um dia, encontrar um que me dê os bons dias com um bem-querer.
Ao lado, as minhas flores preferidas, as papoilas. Tantas. Vermelhas, vibrantes, aveludadas. Recordei, com lágrimas, o dia em que me ofereceram uma braçada delas. Com amor, quero crer.
Mais adiante, os amores perfeitos, malandros, sorriam-me e piscavam os olhitos. Amarelos, brancos, roxos, azuis, cor de fogo. Que jogo de cores sedutor. Fiquei enternecida e também os reguei. Quero-os viçosos e alegres, perfeitamente amorosos.
O olhar perscruta mais além e descobri, no meio de tantas outras, os cravos. Vermelhos. Sim, só tenho cravos vermelhos. Cheirei-os. Tão perfumados. Perfume com R, forte e doce.
As rosas, ciumentas, faziam-me sinais para que lhes desse também atenção. Rosas de toucar, rosas chá, rosas brancas, vermelhas. Todas elas estavam à minha espera. Resolvi colher algumas, mas fiquei indecisa. Quais iriam alegrar a minha sala? Depois de alguma hesitação, achei que as rosas vermelhas teriam de continuar no jardim. Ficariam lá de castigo, à espera que alguém as colhesse para mas oferecer. Decidi-me pelas rosas chá. Cheirosas, far-me-iam companhia quando, mais tarde, me sentasse a ler um poema de amor, ao mesmo tempo que tomaria a minha chávena de chá de jasmim.
Mais adiante, um arbusto prendeu o meu olhar. O seu verde quase me hipnotizou. Olhei os ramos, pejados de folhas minúsculas, salpicados de flores brancas, singelas. Olhei mais de perto e notei os espinhos que se escondiam no meio de tanta beleza. E dei comigo a pensar… apesar de seres lindo, precisas ser podado. Já o devia ter feito na época certa, mas não te quis ferir. Vai ser hoje. Peguei a tesoura e zás…
Abracei o meu molho de rosas e entrei em casa. Dispu-las na jarra, que coloquei na mesa ao lado do cadeirão.
Ao mesmo tempo pensava: feri o arbusto ou feri-me a mim?

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From → azuis

3 comentários
  1. Alpha permalink

    Ambos, my friend, feriste ambos. Jamais magoamos o que quer que seja sem o golpe ter retorno. E os espinhos são fraca defesa de um arbusto ou de uma flor. Toda a gente que já leu o Principezinho sabe disso.

  2. Até que enfim te redescubro!
    Não vou voltar a perder-te de vista, O.
    Beijinhos

  3. Que falta me fazia este azul…:-)
    E sim ambos foram feridos.
    Mas passa.
    Bj

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