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s/título

lido o recado.
e
letra a letra
as palavras transformaram-se
em bofetadas de raiva.

as palavras também doem.

s/título

aos poucos
rasgo o espelho da memória.
redesenhando novos traços
esculpidos em voo livre
sob a estrela que roubei
num olhar moribundo.

aos poucos
enterro o coração de papel.
esmagando na poeira do vento
as palavras negadas.

s/título

essa palavra – que condena
essa onda – que rebenta
essa força – que comprime
esse sapato – que aperta

esse copo – meio vazio

não os quero. não são meus.

são golpes baixos. em caixa alta.
são martelos. em bigorna.
são machados. em lenha.
são achas

com que te queimas.

Em tempo…

Acordei bem cedo com o chilrear dos pardais que, mal despontam os primeiros raios da manhã, fazem o favor de ser o meu despertador. De vez em quando perco a hora, porque não os ouço. E isso acontece quando a coruja, minha amiga, me vem fazer uma visita que se prolonga pela noite fora.
Tudo isto para te contar que, como madruguei, resolvi ir ao meu jardim.
Há muito tempo que ele precisa de um trato; mais parece uma selva. Tenho muito que fazer: capinar, arejar a terra, arrancar as ervas daninhas, podar os arbustos, regar, e procurar entre os trevos um que tenha quatro folhas para ver se a sorte me bafeja.
No entanto, o meu olhar deteve-se nas flores. Nas minhas flores. Primeiro, nos malmequeres. Queres saber? Cortei um, e voltando à minha meninice, pétala a seguir a pétala, as fui arrancando: mal-me-quer, bem-me-quer… na esperança que o bem-me-quer fosse a última. Azar o meu… mal-me-quer. Zangada comigo mesma, porque teimo em querer ser criança, joguei o que restava no saco do lixo.
Apesar disso, reguei os malmequeres na esperança de, um dia, encontrar um que me dê os bons dias com um bem-querer.
Ao lado, as minhas flores preferidas, as papoilas. Tantas. Vermelhas, vibrantes, aveludadas. Recordei, com lágrimas, o dia em que me ofereceram uma braçada delas. Com amor, quero crer.
Mais adiante, os amores perfeitos, malandros, sorriam-me e piscavam os olhitos. Amarelos, brancos, roxos, azuis, cor de fogo. Que jogo de cores sedutor. Fiquei enternecida e também os reguei. Quero-os viçosos e alegres, perfeitamente amorosos.
O olhar perscruta mais além e descobri, no meio de tantas outras, os cravos. Vermelhos. Sim, só tenho cravos vermelhos. Cheirei-os. Tão perfumados. Perfume com R, forte e doce.
As rosas, ciumentas, faziam-me sinais para que lhes desse também atenção. Rosas de toucar, rosas chá, rosas brancas, vermelhas. Todas elas estavam à minha espera. Resolvi colher algumas, mas fiquei indecisa. Quais iriam alegrar a minha sala? Depois de alguma hesitação, achei que as rosas vermelhas teriam de continuar no jardim. Ficariam lá de castigo, à espera que alguém as colhesse para mas oferecer. Decidi-me pelas rosas chá. Cheirosas, far-me-iam companhia quando, mais tarde, me sentasse a ler um poema de amor, ao mesmo tempo que tomaria a minha chávena de chá de jasmim.
Mais adiante, um arbusto prendeu o meu olhar. O seu verde quase me hipnotizou. Olhei os ramos, pejados de folhas minúsculas, salpicados de flores brancas, singelas. Olhei mais de perto e notei os espinhos que se escondiam no meio de tanta beleza. E dei comigo a pensar… apesar de seres lindo, precisas ser podado. Já o devia ter feito na época certa, mas não te quis ferir. Vai ser hoje. Peguei a tesoura e zás…
Abracei o meu molho de rosas e entrei em casa. Dispu-las na jarra, que coloquei na mesa ao lado do cadeirão.
Ao mesmo tempo pensava: feri o arbusto ou feri-me a mim?

bebo da taça das tuas palavras.
e em embriaguez
– turvada a vista –
tento desenhar os teus olhos
nos intervalos das letras
na folha onde escreveste – como se mede o infinito?

o infinito és tu. e eu.
na exacta medida.
nu. amor. eu e tu.

um tabuleiro de xadrez. onde me jogo.

sou peão. serva em devoção.
sou dama. de imortal majestade.
sou cavalo. ataco em galope.
sou rei. sem coroa nem lei.
e refugio-me em torres de marfim.

sem estratégia, deito-me nas casas pretas
esperando os grãos de trigo da tua safra.
tombo nas casas brancas. e levanto-me
forte e bela, quando me fazes
.
.
.
xeque-mate.

quero fugir desta teia em que delirantemente me enredo. buscando – a cada momento – a razão deste sentir que magoa e dói. alucinada, repito. quero_te. e não te_quero. porque tu não existes. a não ser na minha memória e da forma como te_quero. tu és um pássaro. de asas viajantes. olhos de verde lago. garras que me dilaceram por dentro. onde tu não vês.